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Sábado, 28 de Fevereiro de 1970

Excerto I, A Margem da Alegria,

 

(...) Quando as raparigas punham todo o peso da sua esmagadora juventude
no pé e o pé no pó das antigas estradas a caminho das fontes
onde a água corria pelos vagarosos dias desse tempo
quando os cortesãos nos refeitórios de alto pé direito e telha vã
renovavam as rosas do colar murchas com o calor
antes de cavalgarem toda a noite pelos campos até de madrugada
quando não só as salas mas as vidas não ficavam
de repente vazias de convivas
que temiam olhar uns para os outros e medir nesse olhar as dimensões da solidão
e só sentiam como algum remédio para a solidão
abrir as salas aos nocturnos bois dos campos circundantes
quando de repente os dias começavam a correr
na indisciplinada vibração do perigo
ou se não demoravam na hábil e discreta
sondagem dos menores movimentos dos antigos povos
quando pelos jardins passavam as hirtas e rígidas escravas
quebradas na cintura pelos seus cintos de seda
e era bem mais fácil manter o equilíbrio estival da humidade dos pés
quando os homens se compraziam em falar do vento
a propósito do movimento vivo ou lento dos canaviais
a associar tempo e vento para decretar
que as coisas idas com o vento não regressam mais
quando a prosperidade vinha nessa mansa sujeição aos frutos anuais
e casos de prudência e fortaleza eram minuciosamente inscritos nas crónicas reais
quando os alicerces da alegria se cavavam nesse fumo branco que subia dos altares
e não se dava o nome de humildade à coragem mais íntima
nem o de gratidão ao facto de banir um cortesão qualquer
pois inúmeras vitímas conviviam com os reis
quando o tédio não era em tempos prósperos
a inútil herança de uma antiquíssima experiência
e não havia encontros com as trevas nem desejos
satisfeitos jamais se mais se prolongavam e se renovavam
quando as árvores de ariccia protegiam ainda os sacerdotes de diana
e as pátrias não eram como agora o sítio onde se morre (...)
 
 
Excerto de, A Margem da Alegria
nescritas às 13:01

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